O poster acima dá uma idéia correta do filme. E uma errada. O que há de mais fraco em Shortbus é seu desejo de apontar uma possibilidade nova para relacionamentos amorosos. O final do filme é óbvio demais, por conta disso, com seu otimismo que tudo esquece.

Mas, até lá, o filme reflete sobre algumas questões bem interessantes. A imagem dominante nesse filme é a pele. Há pele pelo filme inteiro. Muito contato entre peles (muitas pessoas, aliás, reclamam do filme por ser gráfico demais). Ela chega a ser nomeada por uma personagem, que diz ter consciência de tudo de bom que tem à sua volta, mas que nada o penetra, ‘tudo pára na pele’. Outra personagem classifica pessoas como ‘permeáveis’ e ‘impermeáveis’, conferindo às primeiras uma maior possibilidade de felicidade, de compreensão.

Está colocada, então, a questão  da comunicação entre as pessoas, da solidão, das possibilidades de encontro real entre nós. E tudo em um contexto atual, de tempo e localização bem definidos: Nova York pós-AIDS, pós-11 de setembro, quando o conservadorismo galopou – e ainda galopa – pelas bandas de lá. Apesar dessa contextualização, que ajuda a tornar as personagens mais nítidas, essas questões estão rolando por aí há bem mais tempo, e em bem mais lugares. Nossa pele está mais grossa do que antes? Somos mais impermeáveis? Quais são as possibilidades reais de que dispomos de encontro com outro ser humano, em um mundo que privilegia a pressa e a superficialidade?

O final parece ter optado por não responder – ou melhor, esquecer – as perguntas. Ou, ainda, dar uma resposta bem mais superficial do que a que elas mereciam, uma que parou na pele.

Diotima diz a Sócrates o que sabe sobre o amor. Sócrates, por sua vez, narra o que lhe dissera Diotima a todos os presentes ao banquete que comemorava o prêmio recebido por Agáton por sua primeira tragédia; anos depois, Aristodemo,  que havia estado no banquete, transmite suas lembranças dos discursos feitos então a Apolodoro, que, instado por Glaucon, faz-lhe a narrativa.

Ao reler O Banquete para um curso de extensão, percebi que lembrava pouco além disso. Lembrava, certamente, de que para Diotima, o amor era falta. Havia esquecido, entretanto, de como o discurso dessa mulher da Mantinéia (urdido por Sócrates e recontado por Platão…) retomava algumas idéias de cada um dos discursos precedentes, como uma ferramenta, ou para negá-la. Havia esquecido também de que, para ela, Eros não é um Deus, mas um Daimon. E havia esquecido de que Eros fora criado à imagem e semelhança de Sócrates. Como ele, também Eros sabe que nada sabe e, por isso, aspira à verdade.

O esquecimento imperdoável, o que me fez prometer a mim mesma que leria O Banquete anualmente para garantir que não esqueceria mais, era da ‘pedagogia amorosa’, exemplificada no caminho (‘a boa via’) que um jovem deveria trilhar desde a adolescência para atingir a revelação da beleza eterna, imutável, absoluta, suprema, a que o amor aspira, como filósofo que é.

“Se não garantirmos o nosso, quem vai?”

 Esta frase, dita por Sérgio Morrison, organizador da passeata que tenta tomar as ruas de São Paulo, hoje, e integra o movimento ‘Cansei’, é reveladora. A frase é parte integrante da matéria da Folha do último sábado, que traz a opinião de intelectuais que ocupam várias posições no espectro ideológico. Chamam atenção as palavras abaixo: 

 O psicanalista Tales Ab’Sáber, crítico do PT e do governo, avalia que há de fato uma crise. Mas, segundo ele, o “Cansei” não tem condição de dar uma resposta a ela: “Esse grupo é impotente. Não há interesse real em transformar o Estado. É um muxoxo que não muda a realidade, porque os grupos que estão nele são ligados aos tucanos. Eles isolaram a política da sociedade, produziram essa sensação de impotência de que tudo é complexo demais para ser mudado”.

Dito por um crítico do governo, as palavras ganham ainda mais em relevância. E é inegável o que expressam. A fala de morrison, que também é diretor do Comitê de Jovens Executivos da FIESP, mostra que, pelo menos em parte, o ‘Cansei’ nada traz de novo. É a movimentação de um setor da sociedade que se encontra frustrada por considerar que seus interesses não estão sendo privilegiados como gostariam.

Um movimento crítico ao atual governo, que partisse de frentes mais amplas da sociedade e se mostrasse realmente empanhado em transformações profundas, seria muito bem-vindo.  Infelizmente, não é o caso, como informa a quem quiser ouvir o organizador da passeata de hoje.

 

 “Pensar é confinar-se em um único pensamento que, um dia, permanece fixo como uma estrela no céu do mundo”.

 Essa frase de Heidegger, por contraste, sintetiza à perfeição certa característica da forma com que tenho me aproximado das idéias ultimamente. Essa aproximação é feita de forma apressada, descuidada, superficial. Tenho estado dispersa e sujeita a um excesso de informação – em sua maior parte, dispensável – que afrouxa minhas reflexões a ponto de torná-las inconsequentes.

A dificuldade em escrever e, principalmente, a dificuldade em estruturar o pensamento em formas que possam ser comunicadas – por escrito ou não – vem daí. O sujeito atual típico – sou um, ou não? – não suporta confinamentos.  Prefere os espaços abertos da informação apressada ao espaço circunscrito pelos limites do pensamento rigoroso; sente-se melhor sob as luzes artificiais do pisca-pisca que diverte e encanta momentaneamente do que à iluminação dessa estrelinha que ocupa e fascina de forma constante e crescente.

Agradeço a Clóvis Rossi por seu artigo e aos leitores que enviaram carta para o painel do leitor, comentando a entrevista do pai de um dos rapazes que agrediram uma transeunte, expressando parte de minha indignação. Apenas parte, porque há elementos impalpáveis, praticamente impossíveis de converter em palavras. Ao usar a expressão ‘coisa feia’ para qualificar o que seu filho e os amigos fizeram, esse pai parece falar de crianças que praticaram uma travessura, como se a vítima tivesse muito pouca importância, e não de adultos que cometeram um crime.

Ao afirmar a necessidade de ‘outra instância’ para punir seu filho, o Sr. Ludovico Bruno, inadvertidamente, deixa claro algo que a hipocrisia cotidiana vela: o desejo que tem uma parte da sociedade de estabelecer de uma vez por todas uma separação bem marcada entre quem existe e quem não existe; quem é cidadão e quem não é; entre os que se pode ‘prender, botar preso, juntar com outros bandidos’  (seria esse ‘outros’ um ato falho?) e aqueles que estão acima da lei, ainda que sejam criminosos confessos.

Confesso que chorei lendo a entrevista. A mim me parece que a violência contínua a que estamos submetidos começa a nos contaminar de forma essencial. À indagação de Anna Veronica Mautner, eu responderia que a barbárie só não está tão mais à vista porque está dentro de nós e não queremos enxergá-la.

sheep1.jpgDois cientistas do Oregon, nos Estados Unidos, criaram controvérsia com sua pesquisa acerca da sexualidade dos carneiros. Ao se lançarem à investigação de possíveis fatores biológicos da orientação sexual desses animais, ambos caíram de pára-quedas em meio a uma das mais acirradas guerras culturais do lado de lá do Atlântico.

Para além da existência ou não de méritos científicos em sua investigação, Charles Roselli e Fred Stormshak têm de lidar com as questões éticas levantadas pela tentativa de previsão de suas consequências.

Brokeback Mutton (Washington Post) 

PETA sets the record straight about gay sheep experiments (PETA)

Woold and graze: gay sheep revisited (Slate)

Estudo sobre a homossexualidade em ovelhas provoca controvérsias (NYT, em português)

Os cientistas afirmam que a motivação de sua pesquisa é puramente técnica-científica e de que nada tem de homofóbica. É compreensível que justifiquem assim seus estudos, já que o ímpeto investigativo dos seres humanos é mesmo irresistível e já nos proporcionou avanços inestimáveis nos campos da tecnologia e saúde, por exemplo. Entretanto, é inegável que esse mesmo ímpeto já causou efeitos igualmente negativos, gerando destruição e diminuição da qualidade de vida. Assim, justificar estudos científicos com o argumento da ciência pela ciência pode fazer sentido, mas não anula as preocupações quanto às consequências éticas do que está sendo estudado.

A ver.

 

O mais extraordinário nesse pequeno filme de Stephen Frears é sua habilidade em manter a narrativa em um ponto de equilíbrio, sem pender ostensivamente para este ou aquele lado. Já na primeira cena, a rainha conversa com um artista que pinta seu retrato. Falam sobre a eleição para o gabinete de Primeiro-Ministro e Elizabeth lamenta não poder votar, coisa que desejava “pelo simples prazer irresistível de ser parcial”. A impressão que se tem é que Frears empreendeu esforços para manter-se imparcial.  Morta há 10 anos, a princesa Diana parecia ser  um dos últimos temas a ser abordado em um filme que se pretende imparcial. Mas deu certo. Se Diana era realmente uma mulher virtuosa e caridosa como acreditam seus admiradores até hoje, ou uma pessoa de difícil trato na intimidade, que sabia como lidar com a mídia e, consequentemente, cuidar de sua imagem pública, não interessa. O central aqui é que sua morte ocorreu em um momento em que a mídia – responsável ou não pelo acidente que a vitimou, também não importa – havia se tornado agente e canal da vida política, ao confundir as esferas pública e privada. Blair e Charles entendiam bem esse ponto central, mas Elizabeth II, sua mãe e o príncipe Phillip mostravam maior dificuldade para apreender a real dimensão do que viviam e como viviam. Um bom exemplo da distância marcada entre a família real e o povo britânico é a questão em torno da bandeira do Palácio de Buckingham, que era exposta apenas quando a soberana estava no Palácio. Para o povo, o fato de a bandeira não tremular a meio mastro era uma afronta a seu luto pela morte de Diana quando, na verdade, o fato era apenas indicativo de que Elizabeth estava em viagem.   O luto midiático exigia mudanças na tradição e, mais importante, demonstrações de carinho pela falecida princesa, ainda que possivelmente falsas e simplesmente formais. Essa é minha leitura, porque por mais que eu tente, não consigo reproduzir a imparcialidade de Frears, que, apesar de dar dignidade à personagem de Elizabeth II, ainda a mostra sob lentes menos favoráveis, através dos pontos de vista de Chérie Blair e de outros. É interessante também acompanhar as nuances da personagem de Tony Blair que, eleito com a promessa de ser um modernizador, mostra-se até certo ponto simpatizante da figura da rainha e, até, reticente em assumir um papel de campeão da causa trabalhista, como era entendida e esperada, depois de 15 anos de domínio conservador. Inevitável sorrir, quase ao final do filme, na cena em que Elizabeth II faz uma advertência a Blair. A aliança de Blair com um certo presidente de um país do Novo Mundo vem à mente. Enfim, assim como ‘Bom-Dia, Boa Sorte’, ‘A Rainha’ é um filme que enfoca fatos aparentemente relativos a apenas um determinado país em uma determinada época, mas que, por sua riqueza narrativa, interessa a todos nós. 

(Apenas como curiosidade, essa notícia parece demonstrar que Elizabeth II aparentemente aprendeu algumas lições em marketing pessoal 101).