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“Se não garantirmos o nosso, quem vai?”

 Esta frase, dita por Sérgio Morrison, organizador da passeata que tenta tomar as ruas de São Paulo, hoje, e integra o movimento ‘Cansei’, é reveladora. A frase é parte integrante da matéria da Folha do último sábado, que traz a opinião de intelectuais que ocupam várias posições no espectro ideológico. Chamam atenção as palavras abaixo: 

 O psicanalista Tales Ab’Sáber, crítico do PT e do governo, avalia que há de fato uma crise. Mas, segundo ele, o “Cansei” não tem condição de dar uma resposta a ela: “Esse grupo é impotente. Não há interesse real em transformar o Estado. É um muxoxo que não muda a realidade, porque os grupos que estão nele são ligados aos tucanos. Eles isolaram a política da sociedade, produziram essa sensação de impotência de que tudo é complexo demais para ser mudado”.

Dito por um crítico do governo, as palavras ganham ainda mais em relevância. E é inegável o que expressam. A fala de morrison, que também é diretor do Comitê de Jovens Executivos da FIESP, mostra que, pelo menos em parte, o ‘Cansei’ nada traz de novo. É a movimentação de um setor da sociedade que se encontra frustrada por considerar que seus interesses não estão sendo privilegiados como gostariam.

Um movimento crítico ao atual governo, que partisse de frentes mais amplas da sociedade e se mostrasse realmente empanhado em transformações profundas, seria muito bem-vindo.  Infelizmente, não é o caso, como informa a quem quiser ouvir o organizador da passeata de hoje.

sheep1.jpgDois cientistas do Oregon, nos Estados Unidos, criaram controvérsia com sua pesquisa acerca da sexualidade dos carneiros. Ao se lançarem à investigação de possíveis fatores biológicos da orientação sexual desses animais, ambos caíram de pára-quedas em meio a uma das mais acirradas guerras culturais do lado de lá do Atlântico.

Para além da existência ou não de méritos científicos em sua investigação, Charles Roselli e Fred Stormshak têm de lidar com as questões éticas levantadas pela tentativa de previsão de suas consequências.

Brokeback Mutton (Washington Post) 

PETA sets the record straight about gay sheep experiments (PETA)

Woold and graze: gay sheep revisited (Slate)

Estudo sobre a homossexualidade em ovelhas provoca controvérsias (NYT, em português)

Os cientistas afirmam que a motivação de sua pesquisa é puramente técnica-científica e de que nada tem de homofóbica. É compreensível que justifiquem assim seus estudos, já que o ímpeto investigativo dos seres humanos é mesmo irresistível e já nos proporcionou avanços inestimáveis nos campos da tecnologia e saúde, por exemplo. Entretanto, é inegável que esse mesmo ímpeto já causou efeitos igualmente negativos, gerando destruição e diminuição da qualidade de vida. Assim, justificar estudos científicos com o argumento da ciência pela ciência pode fazer sentido, mas não anula as preocupações quanto às consequências éticas do que está sendo estudado.

A ver.

Não são todas as matérias da cobertura jornalística da violência urbana que nos pegam de jeito. Hoje de manhã, muitos de nós fomos pegos de surpresa logo na hora do café e alguns outros, na rua, enquanto olhávamos as manchetes dos jornais nas bancas. O costumeiro ar abstrato das matérias que não nos dizem respeito de forma mais próxima deu lugar a uma incredulidade que ainda resiste, apesar dos fatos que se somam para anulá-la diariamente. A horrível concretude de uma criança ter seu corpo e seu cérebro destruídos por um carro que a arrastava por dolorosos metros – quilômetros, qual a diferença? – nos assombrou em graus variados nessa sexta-feira. Logo, entretanto, o inesperado – a surpresa com a crueldade – dos criminosos e do acaso – cede novamente lugar ao costumeiro: medidas paliativas, de cunho repressivo, voltam à pauta dos jornais televisivos e a repreensão àquelas pessoas que não endossam a mesma solução. Nesses momentos, aqueles que defendem medidas de alcance midiático mais discreto, porém constantes, bem-estruturadas, no que tange às questões sociais, como educação, saneamento, inclusão econômica, etc. são acusados de ‘colocar os direitos dos criminosos à frente das vítimas’.

Corta para a Revista piauí (assim mesmo, no diminutivo) .

Uma matéria escrita por Mário Vargas Llosa me lembra de que a crueldade dos seres humanos contra seus semelhantes é cotidiana, diária, menos estampada em manchetes e suscita menos discussão em torno de medidas contra seus responsáveis. No artigo “O Cheiro da Pobreza”, que não está online no site da revista e em que afirma que “o objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a internet ou a bomba atômica. É a privada.”, Llosa indica  a leitura de um relatório recém-publicado pela ONU, com o título A Água para lá da escassez: poder, pobreza e a crise mundial da água.

Diz Llosa:

“Onde os seres humanos esvaziam a bexiga e os intestinos é determinante para saber se ainda estão mergulhados na barbárie do subdesenvolvimento, ou se já começaram a progredir. As consequências desse fato simples e transcendental na vida das pessoas são vertiginosas. No mínimo, um terço da população do planeta – uns 2.6 bilhões de pessoas – não sabe o que é um sanitário, uma latrina, uma fossa séptica, e faz suas necessidades como os animais, no mato, à beira de córregos e mananciais, ou em sacolas e latas que são jogadas no meio da rua. E mais ou menos 1 bilhão utiliza águas contaminadas por fezes humanas e animais para beber, cozinhar, lavar roupa e fazer a higiene pessoal.Isso faz com que pelo menos1.8 milhão de crianças morram, a cada ano, vítimas de diarréia. E que doenças infecciosas como cólera, tifo e parasitoses, causadas pelo que o relatório chama eufemisticamente de ‘falta de acesso ao saneamento’, provoquem enormes devastações na África, na Ásia e na América Latina, constituindo a segunda causa de mortalidade infantil no mundo”

Parece algo tão abstrato, não? Tão distante. Mas, em algum lugar do mundo, é bem concreto e bem real. Tão concreto e real que tem cheiro.

Uma dos elementos mais incríveis dessa situação é que, em geral, os lugares com a pior qualidade da água são também os lugares onde ela é mais cara para a população. Diz Vargas Llosa que, enquanto Salvadorenhos, jamaicanos e nicaragüenses gastam 20% da renda com água, britânicos gastam em média apenas 3%.

Não há como reproduzir todo o artigo aqui, mas é inevitável terminar com a conclusão do autor, que, para quem começou o dia com a  notícia de um menino de seis anos morrendo de uma das formas mais cruéis que se possa imaginar, é bastante custosa.

“Um dos aspectos mais sombrios da questão é que, em grande parte por causa do nojo e da repulsa que os seres humanos sentimos por tudo o que tem a ver com a merda, os governos e organismos internacionais de promoção do desenvolvimento não costumam dar a ela a devida prioridade. Geralmente a subestimam, e dedicam recursos insignificantes a projetos de saneamento. A verdade é que viver em meio à sujeira é nefasto não apenas para o corpo mas também para o espírito, para a mais elementar auto-estima, para o ânimo que permite erguer a cabeça contra o infortúnio e manter viva a esperança, motor de todo o progresso. ‘Nascemos entre fezes e urina’, escreveu Santo Agostinho’. Um calafrio deveria subir por nossas costas como uma cobra de gelo ao pensarmos que um terço de nossos contemporâneos nunca acaba de sair da imundície em que veio a este vale de lágrimas.”