Leituras


O caderno Prosa & Verso da edição de hoje de O Globo traz uma resenha do livro de Dora Kramer, escrita por José Casado. Em O Poder pelo Avesso, Kramer analisa os dois mandatos de Lula, observando sua relação com o culto a personalidade e as perversões que ela acarreta. Após a declaração anti-democrática do presidente, durante a abertura de um encontro do PC do B, ficou ainda mais evidente a forma com que o atual presidente pensa a democracia e o estado de direito, o que torna a leitura do livro de Kramer ainda mais interessante.

Antes da leitura do livro, tendo-se em mente apenas a resenha, a única ressalva que pode ser feita é a de que a frase citada logo na abertura poderia ser aplicada a todo o período compreendido entre a conquista do voto direto até hoje:

Nosso trajeto se inicia com a celebração da esperança expressa no desejo de mudança e termina com o sentimento de que há no ar o aroma azedo do medo de pensar diferente.”

Toda a esperança presente no movimento pela aprovação da emenda constitucional Dante de Oliveira desembocou no mesmo aroma azedo. Não apenas do “medo de pensar diferente”, mas pela observação lenta mas certeira de que a corrupção presente em todos os governos deste período é o que permite que hoje, Lula “seja um governante disposto a testar todos os limites”. O esgarçamento desses limites já havia sido preparado pelo descrédito de anos de governos corruptos e pelo menos três assassinatos sem solução até hoje. A presença forte de Renan Calheiros no cenário político, sua permanência como aliado em todos os governos, é apenas um sintoma desse esgarçamento.

Certamente, Lula levou o jogo a um outro nível. A desvalorização do espaço público tem entre suas conseqüências justamente esse “culto a personalidade” a que Dora Kramer se refere, e do qual Lula lança mão e se beneficia. Por esta razão, O Poder pelo Avesso se mostra uma leitura tão relevante.  A conferir.

……….

O Poder pelo Avesso
Editora Barcarolla
416 páginas
R$ 39,00

 

Já li artigos bastante interessantes sobre o movimento slow writing, mas isso já está beirando o ridículo: não apenas o espaço de tempo entre meus posts é excessivo, mesmo para o maior seguidor deste movimento, como também a qualidade esperada pela diminuição do ritmo está longe de ser atingida aqui.

 

Quebro o jejum de letrinhas apenas para mencionar a leitura de Esboço para um Auto-Retrato, do crítico de arte Bernard Berenson. Nunca havia lido nada escrito por Berenson, a não ser o breve trecho que consta da epígrafe do romance A Paixão Segundo GH, de Clarice Lispector, livro que me acompanha, no duro, há quase 20 anos.

Comprei o livro de Berenson ao encontrá-lo em um sebo que freqüento, não apenas por conta desta epígrafe, mas também por me lembrar do melhor livro que li sobre Clarice, escrito por sua amiga Olga Borelli: Esboço para um Possível Retrato. A semelhança entre os títulos, somada à afirmação de Clarice de que o livro de Berenson nada tinha a ver com o seu, apesar de ter escolhido dele um trecho para epigrafe (methinks the lady doth protest too much…), fez com que ele se tornasse irresistível para mim.

E não me arrependi. Seja qual for a idéia que se tenha do autor finda a leitura do livro, é inegável que ele tenha sido uma testemunha (uma das ultimas, talvez?) de um mundo que parece estar se despedindo de nós. Um mundo onde isto ainda se faz sentir. Isto não é algo que está dado no mundo; antes, é necessária uma sensibilidade específica para percebê-lo. Da mesma forma, esta sensibilidade específica não é algo puramente dado; ao menos, não me parece que seja assim. Quero dizer, ainda que o indivíduo tenha propensão a ela, como vivê-la em um mundo que é seu franco inimigo?

Devorei o livro de Berenson como quem morre de inanição. Como eu senti falta dessa comunhão. Como eu senti falta disto.

A epígrafe (que Clarice deixa no original, em inglês, traduzindo-a apenas em uma das crônicas que escreveu para o JB): “Uma vida completa talvez seja a que termine em tal plena identificação com o não-eu, que não resta nenhum eu para morrer.”

Outro trecho:

Isto são as experiências supremas, valorizadas por si mesmas e em intenção de nós mesmos, intransitivas, embora afetem igualmente os outros e a nós, na medida em que permanecemos sob o horizonte do momento – quer dizer, sob o limiar da consciência. Isto é estético e, até o ponto máximo em que os dois podem ser mantidos separados, não-ético. Isto aceita o que é como se o que é fosse uma obra e arte em que as qualidades superassem em importância os defeitos a tal ponto que estes pudessem ser ignorados. Isto é incapaz de analisar, não exige explicações nem apologia, é auto-evidente e certo. Podemos cantá-lo, mas discuti-lo é impossível. Isto é o estado mais imediato e místico. (…) Todas as experiências que ainda estão à minha espera, grandes ou pequenas, serão uma obra de arte, um máximo, serão isto (…). (…) Assim, de certo modo, atingi a promessa de Goethe de que o que se deseja ardentemente quando jovem se realiza na velhice. Não estou longe do meu nirvana, estou perto disto. E isto é um sentimento de identificação com a paisagem, com a casa e com tudo o que há nela, com as pessoas que passam, com as pessoas que freqüentamos, com a nossa ocupação, mental ou manual, uma identificação tão completa que desconhece tudo o que é externo a ela. Em outras palavras, isto é uma união mística.”

Até março de 2010!

Diotima diz a Sócrates o que sabe sobre o amor. Sócrates, por sua vez, narra o que lhe dissera Diotima a todos os presentes ao banquete que comemorava o prêmio recebido por Agáton por sua primeira tragédia; anos depois, Aristodemo,  que havia estado no banquete, transmite suas lembranças dos discursos feitos então a Apolodoro, que, instado por Glaucon, faz-lhe a narrativa.

Ao reler O Banquete para um curso de extensão, percebi que lembrava pouco além disso. Lembrava, certamente, de que para Diotima, o amor era falta. Havia esquecido, entretanto, de como o discurso dessa mulher da Mantinéia (urdido por Sócrates e recontado por Platão…) retomava algumas idéias de cada um dos discursos precedentes, como uma ferramenta, ou para negá-la. Havia esquecido também de que, para ela, Eros não é um Deus, mas um Daimon. E havia esquecido de que Eros fora criado à imagem e semelhança de Sócrates. Como ele, também Eros sabe que nada sabe e, por isso, aspira à verdade.

O esquecimento imperdoável, o que me fez prometer a mim mesma que leria O Banquete anualmente para garantir que não esqueceria mais, era da ‘pedagogia amorosa’, exemplificada no caminho (‘a boa via’) que um jovem deveria trilhar desde a adolescência para atingir a revelação da beleza eterna, imutável, absoluta, suprema, a que o amor aspira, como filósofo que é.

 

 “Pensar é confinar-se em um único pensamento que, um dia, permanece fixo como uma estrela no céu do mundo”.

 Essa frase de Heidegger, por contraste, sintetiza à perfeição certa característica da forma com que tenho me aproximado das idéias ultimamente. Essa aproximação é feita de forma apressada, descuidada, superficial. Tenho estado dispersa e sujeita a um excesso de informação – em sua maior parte, dispensável – que afrouxa minhas reflexões a ponto de torná-las inconsequentes.

A dificuldade em escrever e, principalmente, a dificuldade em estruturar o pensamento em formas que possam ser comunicadas – por escrito ou não – vem daí. O sujeito atual típico – sou um, ou não? – não suporta confinamentos.  Prefere os espaços abertos da informação apressada ao espaço circunscrito pelos limites do pensamento rigoroso; sente-se melhor sob as luzes artificiais do pisca-pisca que diverte e encanta momentaneamente do que à iluminação dessa estrelinha que ocupa e fascina de forma constante e crescente.

Respondendo a um post em outro blog, sobre a necessidade ou não de clareza em um poema para sua abertura à interpretação, me dei conta (diariamente, na verdade) de que o tema do silêncio sempre me ronda. Então, resolvi reproduzir aqui um trecho da interpretação de Gadamer sobre um pequeno poema de Paul Celan, que inicia o seu Quem Sou Eu, Quem És Tu?

Há filósofos que se aventuram a interpretar poemas e criam uma confusão absurda em minha pobre mente, apesar do fato de suas interpretações serem uma viagem fascinante. Heidegger, com Trakl e Hölderlin, por exemplo. Na hora em que eu leio suas interpretações, elas me parecem, ao mesmo tempo, absurdas e repletas de insights. E também, isso é que é pior, com a sensação de que eu nunca chegaria nelas, justamente porque os poemas são para lá de obscuros, principalmente os de Trakl.
 

Recentemente, me meti em mais uma aventura: comecei a ler o texto de Gadamer sobre os poemas de Paul Celan. Estou no início ainda, mas o movimento se repete: poemas obscuros, interpretações originalíssimas, apesar de trazerem idéias com as quais estou familiarizada e das quais gosto muito, consciência absurda das minhas limitações, caso fosse deixada à sós com a poesia de Celan.
 

Um exemplo. Celan:

“Tu podes confiante
receber-me com neve:
sempre ao percorrer o verão
ombro a ombro com a amoreira
gritava sua mais jovem
folha.”

Gadamer:
 
“O poema é dominado por um forte contraste. A neve, que torna tudo uniforme e frio mas que igualmente acalma, não é somente recebida aqui, ela também é saudada. Pois o verão, que permanece atrás daquele que fala, pelo visto foi dificilmente suportado na profusão de sua atividade, de seu desabrochar e desdobrar-se. Certamente não se trata de um verão real, tampouco o Tu que é interpelado significa o inverno ou oferece neve real. Certamente houve um tempo de profusão, contra o qual a esterilidade do inverno atua como um alívio. (…) Além do mais, deve-se atentar para o que significa o ‘sempre’. A ênfase em um caminho repetido sugere que a esperança do caminhante, daquele que continua sempre a andar, nunca é realizada. Essa esperança seria a de ser acompanhado pela amoreira da vida ainda que uma única vez, calma e silenciosamente. Porém, haverá sempre um novo rebento, exigente como o grito do recém-nascido sedento, não permitindo qualquer tranquilidade. (…) Quem poderá definir o que está em jogo entre desejo e renúncia, entre verão e inverno, vida e morte, grito e tranquilidade, palavra e silêncio? O que estes versos expressam é a disposição para aceitar esse outro, seja ele o que for. Assim, parece-me, por fim, inteiramente possível ler essa disposição diretamente como disposição para a morte, como aceitação do último e mais extremo contraste com o excesso da vida. (…) Perguntamos novamente: o que significa ‘neve’ aqui? Seria uma alusão à experiência de fazer poesia? Seria talvez a palavra do próprio poema que se enuncia à medida que, em sua discrição, garante o silêncio do inverno, oferecido como uma dádiva? Ou será que ela significa, e é, para todos nós, aquele ser silencioso depois de um excesso de palavras, que todos conhecemos e que pode aparecer para todos nós como um alívio verdadeiro? A questão não é para ser respondida. A distinção entre mim e você, entre o Eu do poeta e todos nós, a quem seu poema alcança, falha. O poema diz ao poeta, assim como a todos nós, que o silêncio é bem-vindo. (…).”

Além da abordagem de temas que me interessam, a interpretação de Gadamer me atrai justamente porque abre mais um espaço para o silêncio ao dizer que algumas  questões importantes não precisam ser respondidas, o que, por si só, já reduz a opressão da ‘normalidade’ cotidiana de palavras, frases, respostas, certezas. Aqui, um texto de Raquel Abi-Sâmara, tradutora de Celan e Gadamer