cinema


 

Trecho de uma troca de mensagens entre mim e alguém que havia acabado de assistir a Anticristo e ainda estava tentando decidir o que pensava a respeito do filme:

Gosto dos filmes do Lars von Trier porque viajo neles. Hoje mesmo estava lendo Os Irmãos K. e passei pelo trecho do diálogo entre Ivan e Aliócha, na taverna, depois que este último conversa com Lise, antes de voltar para junto do Stárietz, que morre. Juro pela raposa falante de Anticristo que, ao dirigir Dogville, von Trier se comportou conosco da mesma forma que, em parte do diálogo, Ivan se comporta com Aliócha. No livro, Ivan, negando-se a aceitar a hipocrisia que se apóia no cristianismo para justificar as mais cruéis ações contra quem nunca poderia se defender, descreve justamente todas as humilhações e sofrimentos pelos quais estes poderiam passar. Ao final, ele sugere ao irmão, interrogativamente, o que se deveria fazer com um dos ofensores. “Fuzilar?” Ao que o irmão, o mais puro, o mais pio, o mais cristão dos Karamázov, por um momento concorda: “Fuzilar!”. Ivan conclui: “Bravo! Já que tu o disseste, então… Ai, seu monge asceta! Vê só que demoniozinho tu tens no coração, Aliócha Karamázov.”

Não foi exatamente o que Lars von Trier fez conosco no fim de Dogville? Pelo menos, foi assim que eu me senti, ao fim da sessão: presa em uma armadilha, uma “ilustração” eficiente de como sou capaz de gozar com a morte do outro.

Depois de ter escrito e enviado isso, pensei que é também desse gozar com a destruição do outro de que trata parte da obra do diretor norueguês. Certamente, isso não é uma característica deste ou daquele sexo ou gênero. É humano. Há um outro trecho de Os Irmãos Karamázov em que uma das personagens ecoa a conclusão a que muitos de nós já chegamos: a crueldade que podemos presenciar entre os humanos é tal como os animais nunca poderiam imaginar. Porque somos dotados de linguagem, porque somos simbólicos, podemos testemunhar uma beleza a que nenhum outro ser vivo tem acesso, mas também podemos sofrer e infligir dores inéditas.

Para quem lê russo, Братья Карамазовы.

(definitivamente, não é o meu caso)

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Nenhum dos textos que eu havia lido, nos jornais, sobre Dúvida antecipou minhas impressões sobre o filme. Considerações sobre o pouco espaço aberto à possibilidade de inocência do padre pela freira à parte, penso que as resenhas e comentários foram muito menos generosos com a personagem de Meryl Streep do que o equilíbrio recomendaria.

 

Pode ser algo que deponha contra mim, mas saí do cinema sem quaisquer dúvidas.

 

Algo que não pode mesmo ser esquecido em qualquer comentário sobre esse filme é o diálogo entre a irmã Aloysius e a mãe de Donald; na fala da mãe que vê no padre, provavelmente culpado da acusação que paira no ar contra ele, a melhor chance que tem seu filho de escapar à pobreza e ao preconceito que o cerca, pode estar uma das chaves para compreender alguns trechos de diálogo entre ele e a freira: para a mãe, o padre, independente da verdade ou não da acusação, um homem culto, que demonstra especial interesse em seu filho, o trata com carinho, e que pode tomá-lo sob sua proteção e encaminhá-lo a uma educação universitária. Ela é mais específica: ela sabe que seu filho é gay e precisa de um homem  que o ame. Esse filho que não tem nem ao menos o amor do pai, que conhece sua natureza. Há um momento lapidar em que a freira afirma que essa natureza não é importante; o que importa são os atos cometidos. Mas é irônico ver que o que está em jogo é, sim, algo da ordem da natureza. Obviamente, não da sexualidade de Donald, mas do fato que pode ter ocorrido.

 

Enquanto certamente podemos simpatizar com a mãe que reconhece em seu filho uma característica, além da cor da pele, que o distingue da maioria que o cerca e que, nas circunstâncias em que vivem, o fragiliza um pouco mais ainda; e que, reconhecendo isto, segue amando-o e tentando protegê-lo, não menos certamente nos opomos à sua disposição de fechar os olhos para o que possa estar realmente acontecendo entre seu filho e o padre Brendan. Onde está a chave para o diálogo entre as personagens de Philip Seymour Hoffmann e Meryl Streep? No fato de que também para o padre ele é o que de melhor poderia ter acontecido ao menino. Ele realmente acredita no amor e na bondade com que trata o rapaz. Parte do antagonismo com que a crítica encarou a personagem de Meryl Streep, injustamente, em minha opinião, se deve ao fato de que, em algum grau, seu olhar se colou ao ponto de vista do padre.

 

 

A dúvida em questão não parece mais recair sobre se o ato (im)pensado aconteceu ou não entre os dois, mas sobre a natureza desse ato. Também sobre isso irmã Aloysius não tem dúvidas: é fundamentalmente errado. Essa convicção é admirável e isso poderia ter sido notado pelos críticos. Se mudarmos o foco um pouco e olharmos por este ponto de vista, percebemos a permanência da opressão a que as mulheres são ainda submetidas na hierarquia da igreja católica – não à toa, o padre Brendan age com uma arrogância que lhe vem naturalmente, no início do filme, em relação à freira: quando entra em sua sala pela primeira vez, ele senta na cadeira dela e é servido por ela. Já no meio da narrativa, quando o conflito está posto, ele diz que ela deve obediência à hierarquia da igreja, por ter feito votos – mas esquece de que ele também os fez: votos de castidade. Nenhuma das resenhas que li a respeito do filme tocou neste aspecto, o que é inexplicável. Será que a questão ainda é tão “natural” que permanece imperceptível?

 

 

Por último, o final. A colunista da Veja afirmou – e vários outros repetiram – que os últimos 30 segundos do filme cometeram um pecado, o “pecado de querer perdoar”. Como se irmã Aloysius fosse a única a precisar ser perdoada. A cena consiste em ela admitir à irmã James que tem dúvidas. “Tantas dúvidas!”. Os colunistas parecem ter interpretado esta fala como referida a dúvidas sobre a culpa do padre. Ao contrário, a fala parece vir de outros lugares: ela questiona se, depois de tudo que aconteceu, elas deveriam ter o direito de dormir bem. Afinal, após se demitir da paróquia, o padre, que tacitamente admitiu ter um histórico de ligações sexuais com alunos, foi promovido, ficando a cargo de outra paróquia e de uma escola. A personagem de Meryl Streep questiona-se sobre a instituição de que faz parte; sobre o mundo em que vive e como ele prefere ignorar o que acontece;  ela também deve ter dúvidas sobre ela mesma, em seu afastamento de Deus para desmascarar o mal (“in the pursuit of wrongdoing, one steps away from God”); e, provavelmente, ela questiona-se acerca do deus cristão em que acredita e sob os olhos de quem tudo se desenrola.

 

 

Sim, ela tem dúvidas. E a cena em que ela admite isso é o coroamento de um belo filme.

 

A rigor, La Tourneuse de Pages dá a impressão de seguir uma fórmula, inspirada em diretores como Chabrol, para provocar esta ou aquela reação na platéia. Mas há algo neste pequeno filme que faz com que queiramos ver o desastre a que se encaminham as personagens, mesmo percebendo que ele se aproxima. Para mim, por si só isso já faz de Ao Lado da Pianista um bom filme.  O que o torna um ótimo filme é a direção de Denis Dercourt – também responsável pelo roteiro – e a atuação de Catherine Frot e Deborah François, que fazem deste um filme rico em detalhes, de ritmo constante e muito saboroso de ser assistido. 

Os detalhes são um capítulo à parte. De uma forma geral, nada é explicado, muito é sugerido e algo fica como mistério. As motivações de Mélanie esgotam-se em seu desejo de vingança? As ações dela para satisfazê-lo resumem-se ao que aparece na tela? Ou , ao contrário, incluíram uma ação apenas mencionada, mas nunca retomada pela narrativa? Essas são apenas algumas das perguntas que ficam após o filme.

O que me assombra desde que vi o filme, entretanto, é a solidão de Ariane, seu desejo e seus medos. E seu destino, ao final.

O poster acima dá uma idéia correta do filme. E uma errada. O que há de mais fraco em Shortbus é seu desejo de apontar uma possibilidade nova para relacionamentos amorosos. O final do filme é óbvio demais, por conta disso, com seu otimismo que tudo esquece.

Mas, até lá, o filme reflete sobre algumas questões bem interessantes. A imagem dominante nesse filme é a pele. Há pele pelo filme inteiro. Muito contato entre peles (muitas pessoas, aliás, reclamam do filme por ser gráfico demais). Ela chega a ser nomeada por uma personagem, que diz ter consciência de tudo de bom que tem à sua volta, mas que nada o penetra, ‘tudo pára na pele’. Outra personagem classifica pessoas como ‘permeáveis’ e ‘impermeáveis’, conferindo às primeiras uma maior possibilidade de felicidade, de compreensão.

Está colocada, então, a questão  da comunicação entre as pessoas, da solidão, das possibilidades de encontro real entre nós. E tudo em um contexto atual, de tempo e localização bem definidos: Nova York pós-AIDS, pós-11 de setembro, quando o conservadorismo galopou – e ainda galopa – pelas bandas de lá. Apesar dessa contextualização, que ajuda a tornar as personagens mais nítidas, essas questões estão rolando por aí há bem mais tempo, e em bem mais lugares. Nossa pele está mais grossa do que antes? Somos mais impermeáveis? Quais são as possibilidades reais de que dispomos de encontro com outro ser humano, em um mundo que privilegia a pressa e a superficialidade?

O final parece ter optado por não responder – ou melhor, esquecer – as perguntas. Ou, ainda, dar uma resposta bem mais superficial do que a que elas mereciam, uma que parou na pele.

 

O mais extraordinário nesse pequeno filme de Stephen Frears é sua habilidade em manter a narrativa em um ponto de equilíbrio, sem pender ostensivamente para este ou aquele lado. Já na primeira cena, a rainha conversa com um artista que pinta seu retrato. Falam sobre a eleição para o gabinete de Primeiro-Ministro e Elizabeth lamenta não poder votar, coisa que desejava “pelo simples prazer irresistível de ser parcial”. A impressão que se tem é que Frears empreendeu esforços para manter-se imparcial.  Morta há 10 anos, a princesa Diana parecia ser  um dos últimos temas a ser abordado em um filme que se pretende imparcial. Mas deu certo. Se Diana era realmente uma mulher virtuosa e caridosa como acreditam seus admiradores até hoje, ou uma pessoa de difícil trato na intimidade, que sabia como lidar com a mídia e, consequentemente, cuidar de sua imagem pública, não interessa. O central aqui é que sua morte ocorreu em um momento em que a mídia – responsável ou não pelo acidente que a vitimou, também não importa – havia se tornado agente e canal da vida política, ao confundir as esferas pública e privada. Blair e Charles entendiam bem esse ponto central, mas Elizabeth II, sua mãe e o príncipe Phillip mostravam maior dificuldade para apreender a real dimensão do que viviam e como viviam. Um bom exemplo da distância marcada entre a família real e o povo britânico é a questão em torno da bandeira do Palácio de Buckingham, que era exposta apenas quando a soberana estava no Palácio. Para o povo, o fato de a bandeira não tremular a meio mastro era uma afronta a seu luto pela morte de Diana quando, na verdade, o fato era apenas indicativo de que Elizabeth estava em viagem.   O luto midiático exigia mudanças na tradição e, mais importante, demonstrações de carinho pela falecida princesa, ainda que possivelmente falsas e simplesmente formais. Essa é minha leitura, porque por mais que eu tente, não consigo reproduzir a imparcialidade de Frears, que, apesar de dar dignidade à personagem de Elizabeth II, ainda a mostra sob lentes menos favoráveis, através dos pontos de vista de Chérie Blair e de outros. É interessante também acompanhar as nuances da personagem de Tony Blair que, eleito com a promessa de ser um modernizador, mostra-se até certo ponto simpatizante da figura da rainha e, até, reticente em assumir um papel de campeão da causa trabalhista, como era entendida e esperada, depois de 15 anos de domínio conservador. Inevitável sorrir, quase ao final do filme, na cena em que Elizabeth II faz uma advertência a Blair. A aliança de Blair com um certo presidente de um país do Novo Mundo vem à mente. Enfim, assim como ‘Bom-Dia, Boa Sorte’, ‘A Rainha’ é um filme que enfoca fatos aparentemente relativos a apenas um determinado país em uma determinada época, mas que, por sua riqueza narrativa, interessa a todos nós. 

(Apenas como curiosidade, essa notícia parece demonstrar que Elizabeth II aparentemente aprendeu algumas lições em marketing pessoal 101).