O caderno Prosa & Verso da edição de hoje de O Globo traz uma resenha do livro de Dora Kramer, escrita por José Casado. Em O Poder pelo Avesso, Kramer analisa os dois mandatos de Lula, observando sua relação com o culto a personalidade e as perversões que ela acarreta. Após a declaração anti-democrática do presidente, durante a abertura de um encontro do PC do B, ficou ainda mais evidente a forma com que o atual presidente pensa a democracia e o estado de direito, o que torna a leitura do livro de Kramer ainda mais interessante.

Antes da leitura do livro, tendo-se em mente apenas a resenha, a única ressalva que pode ser feita é a de que a frase citada logo na abertura poderia ser aplicada a todo o período compreendido entre a conquista do voto direto até hoje:

Nosso trajeto se inicia com a celebração da esperança expressa no desejo de mudança e termina com o sentimento de que há no ar o aroma azedo do medo de pensar diferente.”

Toda a esperança presente no movimento pela aprovação da emenda constitucional Dante de Oliveira desembocou no mesmo aroma azedo. Não apenas do “medo de pensar diferente”, mas pela observação lenta mas certeira de que a corrupção presente em todos os governos deste período é o que permite que hoje, Lula “seja um governante disposto a testar todos os limites”. O esgarçamento desses limites já havia sido preparado pelo descrédito de anos de governos corruptos e pelo menos três assassinatos sem solução até hoje. A presença forte de Renan Calheiros no cenário político, sua permanência como aliado em todos os governos, é apenas um sintoma desse esgarçamento.

Certamente, Lula levou o jogo a um outro nível. A desvalorização do espaço público tem entre suas conseqüências justamente esse “culto a personalidade” a que Dora Kramer se refere, e do qual Lula lança mão e se beneficia. Por esta razão, O Poder pelo Avesso se mostra uma leitura tão relevante.  A conferir.

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O Poder pelo Avesso
Editora Barcarolla
416 páginas
R$ 39,00

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