O azul e o cinza se encontram em um trecho do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares. Este encontro torna manifesta a transfiguração da melancolia em algo terrivelmente belo. Se tornar pensamentos visíveis, como queria um certo pintor, ou se pintar quadros com palavras, como buscava uma certa escritora, são tarefas possíveis ou não, é uma questão que ficará em aberto, acolhendo quem quiser pensar sobre ela. O fato é que poucos textos nos capturam, como este, pintado em cinza e azul:

“Na tarde em que escrevo, o dia de chuva parou. Uma alegria do ar é fresca demais contra a pele. O dia vai acabando não em cinzento, mas em azul-pálido. Um azul vago reflete-se, mesmo, nas pedras das ruas. Dói viver, mas é de longe. Sentir não importa. Acende-se uma ou outra monta. Em uma outra janela alta há gente que vê acabarem o trabalho. O mendigo que roça por mim pasmaria, se me conhecesse. No azul menos pálido e menos azul, que se espelha nos prédios, entardece um pouco mais a hora indefinida. Cai leve, fim do dia certo, em que os que crêem e erram se engrenam no trabalho do costume, e têm, na sua própria dor a felicidade da inconsciência. Cai leve, onda de luz que cessa, melancolia da tarde inútil, bruma sem névoa que entra no meu coração. Cai leve, suave, indefinida palidez lúcida e azul da tarde aquática – leve, suave, triste sobre a terra simples e fria. Cai leve, cinza invisível, monotonia magoada, tédio sem torpor.”

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