October 2009


 

Trecho de uma troca de mensagens entre mim e alguém que havia acabado de assistir a Anticristo e ainda estava tentando decidir o que pensava a respeito do filme:

Gosto dos filmes do Lars von Trier porque viajo neles. Hoje mesmo estava lendo Os Irmãos K. e passei pelo trecho do diálogo entre Ivan e Aliócha, na taverna, depois que este último conversa com Lise, antes de voltar para junto do Stárietz, que morre. Juro pela raposa falante de Anticristo que, ao dirigir Dogville, von Trier se comportou conosco da mesma forma que, em parte do diálogo, Ivan se comporta com Aliócha. No livro, Ivan, negando-se a aceitar a hipocrisia que se apóia no cristianismo para justificar as mais cruéis ações contra quem nunca poderia se defender, descreve justamente todas as humilhações e sofrimentos pelos quais estes poderiam passar. Ao final, ele sugere ao irmão, interrogativamente, o que se deveria fazer com um dos ofensores. “Fuzilar?” Ao que o irmão, o mais puro, o mais pio, o mais cristão dos Karamázov, por um momento concorda: “Fuzilar!”. Ivan conclui: “Bravo! Já que tu o disseste, então… Ai, seu monge asceta! Vê só que demoniozinho tu tens no coração, Aliócha Karamázov.”

Não foi exatamente o que Lars von Trier fez conosco no fim de Dogville? Pelo menos, foi assim que eu me senti, ao fim da sessão: presa em uma armadilha, uma “ilustração” eficiente de como sou capaz de gozar com a morte do outro.

Depois de ter escrito e enviado isso, pensei que é também desse gozar com a destruição do outro de que trata parte da obra do diretor norueguês. Certamente, isso não é uma característica deste ou daquele sexo ou gênero. É humano. Há um outro trecho de Os Irmãos Karamázov em que uma das personagens ecoa a conclusão a que muitos de nós já chegamos: a crueldade que podemos presenciar entre os humanos é tal como os animais nunca poderiam imaginar. Porque somos dotados de linguagem, porque somos simbólicos, podemos testemunhar uma beleza a que nenhum outro ser vivo tem acesso, mas também podemos sofrer e infligir dores inéditas.

Para quem lê russo, Братья Карамазовы.

(definitivamente, não é o meu caso)

O azul e o cinza se encontram em um trecho do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares. Este encontro torna manifesta a transfiguração da melancolia em algo terrivelmente belo. Se tornar pensamentos visíveis, como queria um certo pintor, ou se pintar quadros com palavras, como buscava uma certa escritora, são tarefas possíveis ou não, é uma questão que ficará em aberto, acolhendo quem quiser pensar sobre ela. O fato é que poucos textos nos capturam, como este, pintado em cinza e azul:

“Na tarde em que escrevo, o dia de chuva parou. Uma alegria do ar é fresca demais contra a pele. O dia vai acabando não em cinzento, mas em azul-pálido. Um azul vago reflete-se, mesmo, nas pedras das ruas. Dói viver, mas é de longe. Sentir não importa. Acende-se uma ou outra monta. Em uma outra janela alta há gente que vê acabarem o trabalho. O mendigo que roça por mim pasmaria, se me conhecesse. No azul menos pálido e menos azul, que se espelha nos prédios, entardece um pouco mais a hora indefinida. Cai leve, fim do dia certo, em que os que crêem e erram se engrenam no trabalho do costume, e têm, na sua própria dor a felicidade da inconsciência. Cai leve, onda de luz que cessa, melancolia da tarde inútil, bruma sem névoa que entra no meu coração. Cai leve, suave, indefinida palidez lúcida e azul da tarde aquática – leve, suave, triste sobre a terra simples e fria. Cai leve, cinza invisível, monotonia magoada, tédio sem torpor.”