Nenhum dos textos que eu havia lido, nos jornais, sobre Dúvida antecipou minhas impressões sobre o filme. Considerações sobre o pouco espaço aberto à possibilidade de inocência do padre pela freira à parte, penso que as resenhas e comentários foram muito menos generosos com a personagem de Meryl Streep do que o equilíbrio recomendaria.

 

Pode ser algo que deponha contra mim, mas saí do cinema sem quaisquer dúvidas.

 

Algo que não pode mesmo ser esquecido em qualquer comentário sobre esse filme é o diálogo entre a irmã Aloysius e a mãe de Donald; na fala da mãe que vê no padre, provavelmente culpado da acusação que paira no ar contra ele, a melhor chance que tem seu filho de escapar à pobreza e ao preconceito que o cerca, pode estar uma das chaves para compreender alguns trechos de diálogo entre ele e a freira: para a mãe, o padre, independente da verdade ou não da acusação, um homem culto, que demonstra especial interesse em seu filho, o trata com carinho, e que pode tomá-lo sob sua proteção e encaminhá-lo a uma educação universitária. Ela é mais específica: ela sabe que seu filho é gay e precisa de um homem  que o ame. Esse filho que não tem nem ao menos o amor do pai, que conhece sua natureza. Há um momento lapidar em que a freira afirma que essa natureza não é importante; o que importa são os atos cometidos. Mas é irônico ver que o que está em jogo é, sim, algo da ordem da natureza. Obviamente, não da sexualidade de Donald, mas do fato que pode ter ocorrido.

 

Enquanto certamente podemos simpatizar com a mãe que reconhece em seu filho uma característica, além da cor da pele, que o distingue da maioria que o cerca e que, nas circunstâncias em que vivem, o fragiliza um pouco mais ainda; e que, reconhecendo isto, segue amando-o e tentando protegê-lo, não menos certamente nos opomos à sua disposição de fechar os olhos para o que possa estar realmente acontecendo entre seu filho e o padre Brendan. Onde está a chave para o diálogo entre as personagens de Philip Seymour Hoffmann e Meryl Streep? No fato de que também para o padre ele é o que de melhor poderia ter acontecido ao menino. Ele realmente acredita no amor e na bondade com que trata o rapaz. Parte do antagonismo com que a crítica encarou a personagem de Meryl Streep, injustamente, em minha opinião, se deve ao fato de que, em algum grau, seu olhar se colou ao ponto de vista do padre.

 

 

A dúvida em questão não parece mais recair sobre se o ato (im)pensado aconteceu ou não entre os dois, mas sobre a natureza desse ato. Também sobre isso irmã Aloysius não tem dúvidas: é fundamentalmente errado. Essa convicção é admirável e isso poderia ter sido notado pelos críticos. Se mudarmos o foco um pouco e olharmos por este ponto de vista, percebemos a permanência da opressão a que as mulheres são ainda submetidas na hierarquia da igreja católica – não à toa, o padre Brendan age com uma arrogância que lhe vem naturalmente, no início do filme, em relação à freira: quando entra em sua sala pela primeira vez, ele senta na cadeira dela e é servido por ela. Já no meio da narrativa, quando o conflito está posto, ele diz que ela deve obediência à hierarquia da igreja, por ter feito votos – mas esquece de que ele também os fez: votos de castidade. Nenhuma das resenhas que li a respeito do filme tocou neste aspecto, o que é inexplicável. Será que a questão ainda é tão “natural” que permanece imperceptível?

 

 

Por último, o final. A colunista da Veja afirmou – e vários outros repetiram – que os últimos 30 segundos do filme cometeram um pecado, o “pecado de querer perdoar”. Como se irmã Aloysius fosse a única a precisar ser perdoada. A cena consiste em ela admitir à irmã James que tem dúvidas. “Tantas dúvidas!”. Os colunistas parecem ter interpretado esta fala como referida a dúvidas sobre a culpa do padre. Ao contrário, a fala parece vir de outros lugares: ela questiona se, depois de tudo que aconteceu, elas deveriam ter o direito de dormir bem. Afinal, após se demitir da paróquia, o padre, que tacitamente admitiu ter um histórico de ligações sexuais com alunos, foi promovido, ficando a cargo de outra paróquia e de uma escola. A personagem de Meryl Streep questiona-se sobre a instituição de que faz parte; sobre o mundo em que vive e como ele prefere ignorar o que acontece;  ela também deve ter dúvidas sobre ela mesma, em seu afastamento de Deus para desmascarar o mal (“in the pursuit of wrongdoing, one steps away from God”); e, provavelmente, ela questiona-se acerca do deus cristão em que acredita e sob os olhos de quem tudo se desenrola.

 

 

Sim, ela tem dúvidas. E a cena em que ela admite isso é o coroamento de um belo filme.

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