Já li artigos bastante interessantes sobre o movimento slow writing, mas isso já está beirando o ridículo: não apenas o espaço de tempo entre meus posts é excessivo, mesmo para o maior seguidor deste movimento, como também a qualidade esperada pela diminuição do ritmo está longe de ser atingida aqui.

 

Quebro o jejum de letrinhas apenas para mencionar a leitura de Esboço para um Auto-Retrato, do crítico de arte Bernard Berenson. Nunca havia lido nada escrito por Berenson, a não ser o breve trecho que consta da epígrafe do romance A Paixão Segundo GH, de Clarice Lispector, livro que me acompanha, no duro, há quase 20 anos.

Comprei o livro de Berenson ao encontrá-lo em um sebo que freqüento, não apenas por conta desta epígrafe, mas também por me lembrar do melhor livro que li sobre Clarice, escrito por sua amiga Olga Borelli: Esboço para um Possível Retrato. A semelhança entre os títulos, somada à afirmação de Clarice de que o livro de Berenson nada tinha a ver com o seu, apesar de ter escolhido dele um trecho para epigrafe (methinks the lady doth protest too much…), fez com que ele se tornasse irresistível para mim.

E não me arrependi. Seja qual for a idéia que se tenha do autor finda a leitura do livro, é inegável que ele tenha sido uma testemunha (uma das ultimas, talvez?) de um mundo que parece estar se despedindo de nós. Um mundo onde isto ainda se faz sentir. Isto não é algo que está dado no mundo; antes, é necessária uma sensibilidade específica para percebê-lo. Da mesma forma, esta sensibilidade específica não é algo puramente dado; ao menos, não me parece que seja assim. Quero dizer, ainda que o indivíduo tenha propensão a ela, como vivê-la em um mundo que é seu franco inimigo?

Devorei o livro de Berenson como quem morre de inanição. Como eu senti falta dessa comunhão. Como eu senti falta disto.

A epígrafe (que Clarice deixa no original, em inglês, traduzindo-a apenas em uma das crônicas que escreveu para o JB): “Uma vida completa talvez seja a que termine em tal plena identificação com o não-eu, que não resta nenhum eu para morrer.”

Outro trecho:

Isto são as experiências supremas, valorizadas por si mesmas e em intenção de nós mesmos, intransitivas, embora afetem igualmente os outros e a nós, na medida em que permanecemos sob o horizonte do momento – quer dizer, sob o limiar da consciência. Isto é estético e, até o ponto máximo em que os dois podem ser mantidos separados, não-ético. Isto aceita o que é como se o que é fosse uma obra e arte em que as qualidades superassem em importância os defeitos a tal ponto que estes pudessem ser ignorados. Isto é incapaz de analisar, não exige explicações nem apologia, é auto-evidente e certo. Podemos cantá-lo, mas discuti-lo é impossível. Isto é o estado mais imediato e místico. (…) Todas as experiências que ainda estão à minha espera, grandes ou pequenas, serão uma obra de arte, um máximo, serão isto (…). (…) Assim, de certo modo, atingi a promessa de Goethe de que o que se deseja ardentemente quando jovem se realiza na velhice. Não estou longe do meu nirvana, estou perto disto. E isto é um sentimento de identificação com a paisagem, com a casa e com tudo o que há nela, com as pessoas que passam, com as pessoas que freqüentamos, com a nossa ocupação, mental ou manual, uma identificação tão completa que desconhece tudo o que é externo a ela. Em outras palavras, isto é uma união mística.”

Até março de 2010!

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