September 2007


O poster acima dá uma idéia correta do filme. E uma errada. O que há de mais fraco em Shortbus é seu desejo de apontar uma possibilidade nova para relacionamentos amorosos. O final do filme é óbvio demais, por conta disso, com seu otimismo que tudo esquece.

Mas, até lá, o filme reflete sobre algumas questões bem interessantes. A imagem dominante nesse filme é a pele. Há pele pelo filme inteiro. Muito contato entre peles (muitas pessoas, aliás, reclamam do filme por ser gráfico demais). Ela chega a ser nomeada por uma personagem, que diz ter consciência de tudo de bom que tem à sua volta, mas que nada o penetra, ‘tudo pára na pele’. Outra personagem classifica pessoas como ‘permeáveis’ e ‘impermeáveis’, conferindo às primeiras uma maior possibilidade de felicidade, de compreensão.

Está colocada, então, a questão  da comunicação entre as pessoas, da solidão, das possibilidades de encontro real entre nós. E tudo em um contexto atual, de tempo e localização bem definidos: Nova York pós-AIDS, pós-11 de setembro, quando o conservadorismo galopou – e ainda galopa – pelas bandas de lá. Apesar dessa contextualização, que ajuda a tornar as personagens mais nítidas, essas questões estão rolando por aí há bem mais tempo, e em bem mais lugares. Nossa pele está mais grossa do que antes? Somos mais impermeáveis? Quais são as possibilidades reais de que dispomos de encontro com outro ser humano, em um mundo que privilegia a pressa e a superficialidade?

O final parece ter optado por não responder – ou melhor, esquecer – as perguntas. Ou, ainda, dar uma resposta bem mais superficial do que a que elas mereciam, uma que parou na pele.

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Diotima diz a Sócrates o que sabe sobre o amor. Sócrates, por sua vez, narra o que lhe dissera Diotima a todos os presentes ao banquete que comemorava o prêmio recebido por Agáton por sua primeira tragédia; anos depois, Aristodemo,  que havia estado no banquete, transmite suas lembranças dos discursos feitos então a Apolodoro, que, instado por Glaucon, faz-lhe a narrativa.

Ao reler O Banquete para um curso de extensão, percebi que lembrava pouco além disso. Lembrava, certamente, de que para Diotima, o amor era falta. Havia esquecido, entretanto, de como o discurso dessa mulher da Mantinéia (urdido por Sócrates e recontado por Platão…) retomava algumas idéias de cada um dos discursos precedentes, como uma ferramenta, ou para negá-la. Havia esquecido também de que, para ela, Eros não é um Deus, mas um Daimon. E havia esquecido de que Eros fora criado à imagem e semelhança de Sócrates. Como ele, também Eros sabe que nada sabe e, por isso, aspira à verdade.

O esquecimento imperdoável, o que me fez prometer a mim mesma que leria O Banquete anualmente para garantir que não esqueceria mais, era da ‘pedagogia amorosa’, exemplificada no caminho (‘a boa via’) que um jovem deveria trilhar desde a adolescência para atingir a revelação da beleza eterna, imutável, absoluta, suprema, a que o amor aspira, como filósofo que é.