July 2007


“Se não garantirmos o nosso, quem vai?”

 Esta frase, dita por Sérgio Morrison, organizador da passeata que tenta tomar as ruas de São Paulo, hoje, e integra o movimento ‘Cansei’, é reveladora. A frase é parte integrante da matéria da Folha do último sábado, que traz a opinião de intelectuais que ocupam várias posições no espectro ideológico. Chamam atenção as palavras abaixo: 

 O psicanalista Tales Ab’Sáber, crítico do PT e do governo, avalia que há de fato uma crise. Mas, segundo ele, o “Cansei” não tem condição de dar uma resposta a ela: “Esse grupo é impotente. Não há interesse real em transformar o Estado. É um muxoxo que não muda a realidade, porque os grupos que estão nele são ligados aos tucanos. Eles isolaram a política da sociedade, produziram essa sensação de impotência de que tudo é complexo demais para ser mudado”.

Dito por um crítico do governo, as palavras ganham ainda mais em relevância. E é inegável o que expressam. A fala de morrison, que também é diretor do Comitê de Jovens Executivos da FIESP, mostra que, pelo menos em parte, o ‘Cansei’ nada traz de novo. É a movimentação de um setor da sociedade que se encontra frustrada por considerar que seus interesses não estão sendo privilegiados como gostariam.

Um movimento crítico ao atual governo, que partisse de frentes mais amplas da sociedade e se mostrasse realmente empanhado em transformações profundas, seria muito bem-vindo.  Infelizmente, não é o caso, como informa a quem quiser ouvir o organizador da passeata de hoje.

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 “Pensar é confinar-se em um único pensamento que, um dia, permanece fixo como uma estrela no céu do mundo”.

 Essa frase de Heidegger, por contraste, sintetiza à perfeição certa característica da forma com que tenho me aproximado das idéias ultimamente. Essa aproximação é feita de forma apressada, descuidada, superficial. Tenho estado dispersa e sujeita a um excesso de informação – em sua maior parte, dispensável – que afrouxa minhas reflexões a ponto de torná-las inconsequentes.

A dificuldade em escrever e, principalmente, a dificuldade em estruturar o pensamento em formas que possam ser comunicadas – por escrito ou não – vem daí. O sujeito atual típico – sou um, ou não? – não suporta confinamentos.  Prefere os espaços abertos da informação apressada ao espaço circunscrito pelos limites do pensamento rigoroso; sente-se melhor sob as luzes artificiais do pisca-pisca que diverte e encanta momentaneamente do que à iluminação dessa estrelinha que ocupa e fascina de forma constante e crescente.

Agradeço a Clóvis Rossi por seu artigo e aos leitores que enviaram carta para o painel do leitor, comentando a entrevista do pai de um dos rapazes que agrediram uma transeunte, expressando parte de minha indignação. Apenas parte, porque há elementos impalpáveis, praticamente impossíveis de converter em palavras. Ao usar a expressão ‘coisa feia’ para qualificar o que seu filho e os amigos fizeram, esse pai parece falar de crianças que praticaram uma travessura, como se a vítima tivesse muito pouca importância, e não de adultos que cometeram um crime.

Ao afirmar a necessidade de ‘outra instância’ para punir seu filho, o Sr. Ludovico Bruno, inadvertidamente, deixa claro algo que a hipocrisia cotidiana vela: o desejo que tem uma parte da sociedade de estabelecer de uma vez por todas uma separação bem marcada entre quem existe e quem não existe; quem é cidadão e quem não é; entre os que se pode ‘prender, botar preso, juntar com outros bandidos’  (seria esse ‘outros’ um ato falho?) e aqueles que estão acima da lei, ainda que sejam criminosos confessos.

Confesso que chorei lendo a entrevista. A mim me parece que a violência contínua a que estamos submetidos começa a nos contaminar de forma essencial. À indagação de Anna Veronica Mautner, eu responderia que a barbárie só não está tão mais à vista porque está dentro de nós e não queremos enxergá-la.