Não são todas as matérias da cobertura jornalística da violência urbana que nos pegam de jeito. Hoje de manhã, muitos de nós fomos pegos de surpresa logo na hora do café e alguns outros, na rua, enquanto olhávamos as manchetes dos jornais nas bancas. O costumeiro ar abstrato das matérias que não nos dizem respeito de forma mais próxima deu lugar a uma incredulidade que ainda resiste, apesar dos fatos que se somam para anulá-la diariamente. A horrível concretude de uma criança ter seu corpo e seu cérebro destruídos por um carro que a arrastava por dolorosos metros - quilômetros, qual a diferença? - nos assombrou em graus variados nessa sexta-feira. Logo, entretanto, o inesperado - a surpresa com a crueldade - dos criminosos e do acaso - cede novamente lugar ao costumeiro: medidas paliativas, de cunho repressivo, voltam à pauta dos jornais televisivos e a repreensão àquelas pessoas que não endossam a mesma solução. Nesses momentos, aqueles que defendem medidas de alcance midiático mais discreto, porém constantes, bem-estruturadas, no que tange às questões sociais, como educação, saneamento, inclusão econômica, etc. são acusados de ‘colocar os direitos dos criminosos à frente das vítimas’.
Corta para a Revista piauí (assim mesmo, no diminutivo) .
Uma matéria escrita por Mário Vargas Llosa me lembra de que a crueldade dos seres humanos contra seus semelhantes é cotidiana, diária, menos estampada em manchetes e suscita menos discussão em torno de medidas contra seus responsáveis. No artigo “O Cheiro da Pobreza”, que não está online no site da revista e em que afirma que ”o objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a internet ou a bomba atômica. É a privada.”, Llosa indica a leitura de um relatório recém-publicado pela ONU, com o título A Água para lá da escassez: poder, pobreza e a crise mundial da água.
Diz Llosa:
“Onde os seres humanos esvaziam a bexiga e os intestinos é determinante para saber se ainda estão mergulhados na barbárie do subdesenvolvimento, ou se já começaram a progredir. As consequências desse fato simples e transcendental na vida das pessoas são vertiginosas. No mínimo, um terço da população do planeta - uns 2.6 bilhões de pessoas - não sabe o que é um sanitário, uma latrina, uma fossa séptica, e faz suas necessidades como os animais, no mato, à beira de córregos e mananciais, ou em sacolas e latas que são jogadas no meio da rua. E mais ou menos 1 bilhão utiliza águas contaminadas por fezes humanas e animais para beber, cozinhar, lavar roupa e fazer a higiene pessoal.Isso faz com que pelo menos1.8 milhão de crianças morram, a cada ano, vítimas de diarréia. E que doenças infecciosas como cólera, tifo e parasitoses, causadas pelo que o relatório chama eufemisticamente de ‘falta de acesso ao saneamento’, provoquem enormes devastações na África, na Ásia e na América Latina, constituindo a segunda causa de mortalidade infantil no mundo”
Parece algo tão abstrato, não? Tão distante. Mas, em algum lugar do mundo, é bem concreto e bem real. Tão concreto e real que tem cheiro.
Uma dos elementos mais incríveis dessa situação é que, em geral, os lugares com a pior qualidade da água são também os lugares onde ela é mais cara para a população. Diz Vargas Llosa que, enquanto Salvadorenhos, jamaicanos e nicaragüenses gastam 20% da renda com água, britânicos gastam em média apenas 3%.
Não há como reproduzir todo o artigo aqui, mas é inevitável terminar com a conclusão do autor, que, para quem começou o dia com a notícia de um menino de seis anos morrendo de uma das formas mais cruéis que se possa imaginar, é bastante custosa.
“Um dos aspectos mais sombrios da questão é que, em grande parte por causa do nojo e da repulsa que os seres humanos sentimos por tudo o que tem a ver com a merda, os governos e organismos internacionais de promoção do desenvolvimento não costumam dar a ela a devida prioridade. Geralmente a subestimam, e dedicam recursos insignificantes a projetos de saneamento. A verdade é que viver em meio à sujeira é nefasto não apenas para o corpo mas também para o espírito, para a mais elementar auto-estima, para o ânimo que permite erguer a cabeça contra o infortúnio e manter viva a esperança, motor de todo o progresso. ‘Nascemos entre fezes e urina’, escreveu Santo Agostinho’. Um calafrio deveria subir por nossas costas como uma cobra de gelo ao pensarmos que um terço de nossos contemporâneos nunca acaba de sair da imundície em que veio a este vale de lágrimas.”