A rigor, La Tourneuse de Pages dá a impressão de seguir uma fórmula, inspirada em diretores como Chabrol, para provocar esta ou aquela reação na platéia. Mas há algo neste pequeno filme que faz com que queiramos ver o desastre a que se encaminham as personagens, mesmo percebendo que ele se aproxima. Para mim, por si só isso já faz de Ao Lado da Pianista um bom filme.  O que o torna um ótimo filme é a direção de Denis Dercourt - também responsável pelo roteiro - e a atuação de Catherine Frot e Deborah François, que fazem deste um filme rico em detalhes, de ritmo constante e muito saboroso de ser assistido. 

Os detalhes são um capítulo à parte. De uma forma geral, nada é explicado, muito é sugerido e algo fica como mistério. As motivações de Mélanie esgotam-se em seu desejo de vingança? As ações dela para satisfazê-lo resumem-se ao que aparece na tela? Ou , ao contrário, incluíram uma ação apenas mencionada, mas nunca retomada pela narrativa? Essas são apenas algumas das perguntas que ficam após o filme.

O que me assombra desde que vi o filme, entretanto, é a solidão de Ariane, seu desejo e seus medos. E seu destino, ao final.

A foto acima dá uma idéia correta do filme. E uma errada. O que há de mais fraco em Shortbus é seu desejo de apontar uma possibilidade nova para relacionamentos amorosos. O final do filme é óbvio demais, por conta disso, com seu otimismo que tudo esquece.

Mas, até lá, o filme reflete sobre algumas questões bem interessantes. A imagem dominante nesse filme é a pele. Há pele pelo filme inteiro. Muito contato entre peles (muitas pessoas, aliás, reclamam do filme por ser gráfico demais). Ela chega a ser nomeada por uma personagem, que diz ter consciência de tudo de bom que tem à sua volta, mas que nada o penetra, ‘tudo pára na pele’. Outra personagem classifica pessoas como ‘permeáveis’ e ‘impermeáveis’, conferindo às primeiras uma maior possibilidade de felicidade, de compreensão.

Está colocada, então, a questão  da comunicação entre as pessoas, da solidão, das possibilidades de encontro real entre nós. E tudo em um contexto atual, de tempo e localização bem definidos: Nova York pós-AIDS, pós-11 de setembro, quando o conservadorismo galopou - e ainda galopa - pelas bandas de lá. Apesar dessa contextualização, que ajuda a tornar as personagens mais nítidas, essas questões estão rolando por aí há bem mais tempo, e em bem mais lugares. Nossa pele está mais grossa do que antes? Somos mais impermeáveis? Quais são as possibilidades reais de que dispomos de encontro com outro ser humano, em um mundo que privilegia a pressa e a superficialidade?

O final parece ter optado por não responder - ou melhor, esquecer - as perguntas. Ou, ainda, dar uma resposta bem mais superficial do que a que elas mereciam, uma que parou na pele.

Diotima diz a Sócrates o que sabe sobre o amor. Sócrates, por sua vez, narra o que lhe dissera Diotima a todos os presentes ao banquete que comemorava o prêmio recebido por Agáton por sua primeira tragédia; anos depois, Aristodemo,  que havia estado no banquete, transmite suas lembranças dos discursos feitos então a Apolodoro, que, instado por Glaucon, faz-lhe a narrativa.

Ao reler O Banquete para um curso de extensão, percebi que lembrava pouco além disso. Lembrava, certamente, de que para Diotima, o amor era falta. Havia esquecido, entretanto, de como o discurso dessa mulher da Mantinéia (urdido por Sócrates e recontado por Platão…) retomava algumas idéias de cada um dos discursos precedentes, como uma ferramenta, ou para negá-la. Havia esquecido também de que, para ela, Eros não é um Deus, mas um Daimon. E havia esquecido de que Eros fora criado à imagem e semelhança de Sócrates. Como ele, também Eros sabe que nada sabe e, por isso, aspira à verdade.

O esquecimento imperdoável, o que me fez prometer a mim mesma que leria O Banquete anualmente para garantir que não esqueceria mais, era da ‘pedagogia amorosa’, exemplificada no caminho (’a boa via’) que um jovem deveria trilhar desde a adolescência para atingir a revelação da beleza eterna, imutável, absoluta, suprema, a que o amor aspira, como filósofo que é.

“Se não garantirmos o nosso, quem vai?”

 Esta frase, dita por Sérgio Morrison, organizador da passeata que tenta tomar as ruas de São Paulo, hoje, e integra o movimento ‘Cansei’, é reveladora. A frase é parte integrante da matéria da Folha do último sábado, que traz a opinião de intelectuais que ocupam várias posições no espectro ideológico. Chamam atenção as palavras abaixo: 

 O psicanalista Tales Ab’Sáber, crítico do PT e do governo, avalia que há de fato uma crise. Mas, segundo ele, o “Cansei” não tem condição de dar uma resposta a ela: “Esse grupo é impotente. Não há interesse real em transformar o Estado. É um muxoxo que não muda a realidade, porque os grupos que estão nele são ligados aos tucanos. Eles isolaram a política da sociedade, produziram essa sensação de impotência de que tudo é complexo demais para ser mudado”.

Dito por um crítico do governo, as palavras ganham ainda mais em relevância. E é inegável o que expressam. A fala de morrison, que também é diretor do Comitê de Jovens Executivos da FIESP, mostra que, pelo menos em parte, o ‘Cansei’ nada traz de novo. É a movimentação de um setor da sociedade que se encontra frustrada por considerar que seus interesses não estão sendo privilegiados como gostariam.

Um movimento crítico ao atual governo, que partisse de frentes mais amplas da sociedade e se mostrasse realmente empanhado em transformações profundas, seria muito bem-vindo.  Infelizmente, não é o caso, como informa a quem quiser ouvir o organizador da passeata de hoje.

 

 “Pensar é confinar-se em um único pensamento que, um dia, permanece fixo como uma estrela no céu do mundo”.

 Essa frase de Heidegger, por contraste, sintetiza à perfeição certa característica da forma com que tenho me aproximado das idéias ultimamente. Essa aproximação é feita de forma apressada, descuidada, superficial. Tenho estado dispersa e sujeita a um excesso de informação - em sua maior parte, dispensável - que afrouxa minhas reflexões a ponto de torná-las inconsequentes.

A dificuldade em escrever e, principalmente, a dificuldade em estruturar o pensamento em formas que possam ser comunicadas - por escrito ou não - vem daí. O sujeito atual típico - sou um, ou não? - não suporta confinamentos.  Prefere os espaços abertos da informação apressada ao espaço circunscrito pelos limites do pensamento rigoroso; sente-se melhor sob as luzes artificiais do pisca-pisca que diverte e encanta momentaneamente do que à iluminação dessa estrelinha que ocupa e fascina de forma constante e crescente.

Agradeço a Clóvis Rossi por seu artigo e aos leitores que enviaram carta para o painel do leitor, comentando a entrevista do pai de um dos rapazes que agrediram uma transeunte, expressando parte de minha indignação. Apenas parte, porque há elementos impalpáveis, praticamente impossíveis de converter em palavras. Ao usar a expressão ‘coisa feia’ para qualificar o que seu filho e os amigos fizeram, esse pai parece falar de crianças que praticaram uma travessura, como se a vítima tivesse muito pouca importância, e não de adultos que cometeram um crime.

Ao afirmar a necessidade de ‘outra instância’ para punir seu filho, o Sr. Ludovico Bruno, inadvertidamente, deixa claro algo que a hipocrisia cotidiana vela: o desejo que tem uma parte da sociedade de estabelecer de uma vez por todas uma separação bem marcada entre quem existe e quem não existe; quem é cidadão e quem não é; entre os que se pode ‘prender, botar preso, juntar com outros bandidos’  (seria esse ‘outros’ um ato falho?) e aqueles que estão acima da lei, ainda que sejam criminosos confessos.

Confesso que chorei lendo a entrevista. A mim me parece que a violência contínua a que estamos submetidos começa a nos contaminar de forma essencial. À indagação de Anna Veronica Mautner, eu responderia que a barbárie só não está tão mais à vista porque está dentro de nós e não queremos enxergá-la.

sheep1.jpgDois cientistas do Oregon, nos Estados Unidos, criaram controvérsia com sua pesquisa acerca da sexualidade dos carneiros. Ao se lançarem à investigação de possíveis fatores biológicos da orientação sexual desses animais, ambos caíram de pára-quedas em meio a uma das mais acirradas guerras culturais do lado de lá do Atlântico.

Para além da existência ou não de méritos científicos em sua investigação, Charles Roselli e Fred Stormshak têm de lidar com as questões éticas levantadas pela tentativa de previsão de suas consequências.

Brokeback Mutton (Washington Post) 

PETA sets the record straight about gay sheep experiments (PETA)

Woold and graze: gay sheep revisited (Slate)

Estudo sobre a homossexualidade em ovelhas provoca controvérsias (NYT, em português)

Os cientistas afirmam que a motivação de sua pesquisa é puramente técnica-científica e de que nada tem de homofóbica. É compreensível que justifiquem assim seus estudos, já que o ímpeto investigativo dos seres humanos é mesmo irresistível e já nos proporcionou avanços inestimáveis nos campos da tecnologia e saúde, por exemplo. Entretanto, é inegável que esse mesmo ímpeto já causou efeitos igualmente negativos, gerando destruição e diminuição da qualidade de vida. Assim, justificar estudos científicos com o argumento da ciência pela ciência pode fazer sentido, mas não anula as preocupações quanto às consequências éticas do que está sendo estudado.

A ver.

 

O mais extraordinário nesse pequeno filme de Stephen Frears é sua habilidade em manter a narrativa em um ponto de equilíbrio, sem pender ostensivamente para este ou aquele lado. Já na primeira cena, a rainha conversa com um artista que pinta seu retrato. Falam sobre a eleição para o gabinete de Primeiro-Ministro e Elizabeth lamenta não poder votar, coisa que desejava “pelo simples prazer irresistível de ser parcial”. A impressão que se tem é que Frears empreendeu esforços para manter-se imparcial.  Morta há 10 anos, a princesa Diana parecia ser  um dos últimos temas a ser abordado em um filme que se pretende imparcial. Mas deu certo. Se Diana era realmente uma mulher virtuosa e caridosa como acreditam seus admiradores até hoje, ou uma pessoa de difícil trato na intimidade, que sabia como lidar com a mídia e, consequentemente, cuidar de sua imagem pública, não interessa. O central aqui é que sua morte ocorreu em um momento em que a mídia – responsável ou não pelo acidente que a vitimou, também não importa – havia se tornado agente e canal da vida política, ao confundir as esferas pública e privada. Blair e Charles entendiam bem esse ponto central, mas Elizabeth II, sua mãe e o príncipe Phillip mostravam maior dificuldade para apreender a real dimensão do que viviam e como viviam. Um bom exemplo da distância marcada entre a família real e o povo britânico é a questão em torno da bandeira do Palácio de Buckingham, que era exposta apenas quando a soberana estava no Palácio. Para o povo, o fato de a bandeira não tremular a meio mastro era uma afronta a seu luto pela morte de Diana quando, na verdade, o fato era apenas indicativo de que Elizabeth estava em viagem.   O luto midiático exigia mudanças na tradição e, mais importante, demonstrações de carinho pela falecida princesa, ainda que possivelmente falsas e simplesmente formais. Essa é minha leitura, porque por mais que eu tente, não consigo reproduzir a imparcialidade de Frears, que, apesar de dar dignidade à personagem de Elizabeth II, ainda a mostra sob lentes menos favoráveis, através dos pontos de vista de Chérie Blair e de outros. É interessante também acompanhar as nuances da personagem de Tony Blair que, eleito com a promessa de ser um modernizador, mostra-se até certo ponto simpatizante da figura da rainha e, até, reticente em assumir um papel de campeão da causa trabalhista, como era entendida e esperada, depois de 15 anos de domínio conservador. Inevitável sorrir, quase ao final do filme, na cena em que Elizabeth II faz uma advertência a Blair. A aliança de Blair com um certo presidente de um país do Novo Mundo vem à mente. Enfim, assim como ‘Bom-Dia, Boa Sorte’, ‘A Rainha’ é um filme que enfoca fatos aparentemente relativos a apenas um determinado país em uma determinada época, mas que, por sua riqueza narrativa, interessa a todos nós. 

(Apenas como curiosidade, essa notícia parece demonstrar que Elizabeth II aparentemente aprendeu algumas lições em marketing pessoal 101).

Não são todas as matérias da cobertura jornalística da violência urbana que nos pegam de jeito. Hoje de manhã, muitos de nós fomos pegos de surpresa logo na hora do café e alguns outros, na rua, enquanto olhávamos as manchetes dos jornais nas bancas. O costumeiro ar abstrato das matérias que não nos dizem respeito de forma mais próxima deu lugar a uma incredulidade que ainda resiste, apesar dos fatos que se somam para anulá-la diariamente. A horrível concretude de uma criança ter seu corpo e seu cérebro destruídos por um carro que a arrastava por dolorosos metros - quilômetros, qual a diferença? - nos assombrou em graus variados nessa sexta-feira. Logo, entretanto, o inesperado - a surpresa com a crueldade - dos criminosos e do acaso - cede novamente lugar ao costumeiro: medidas paliativas, de cunho repressivo, voltam à pauta dos jornais televisivos e a repreensão àquelas pessoas que não endossam a mesma solução. Nesses momentos, aqueles que defendem medidas de alcance midiático mais discreto, porém constantes, bem-estruturadas, no que tange às questões sociais, como educação, saneamento, inclusão econômica, etc. são acusados de ‘colocar os direitos dos criminosos à frente das vítimas’.

Corta para a Revista piauí (assim mesmo, no diminutivo) .

Uma matéria escrita por Mário Vargas Llosa me lembra de que a crueldade dos seres humanos contra seus semelhantes é cotidiana, diária, menos estampada em manchetes e suscita menos discussão em torno de medidas contra seus responsáveis. No artigo “O Cheiro da Pobreza”, que não está online no site da revista e em que afirma que ”o objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a internet ou a bomba atômica. É a privada.”, Llosa indica  a leitura de um relatório recém-publicado pela ONU, com o título A Água para lá da escassez: poder, pobreza e a crise mundial da água.

Diz Llosa:

“Onde os seres humanos esvaziam a bexiga e os intestinos é determinante para saber se ainda estão mergulhados na barbárie do subdesenvolvimento, ou se já começaram a progredir. As consequências desse fato simples e transcendental na vida das pessoas são vertiginosas. No mínimo, um terço da população do planeta - uns 2.6 bilhões de pessoas - não sabe o que é um sanitário, uma latrina, uma fossa séptica, e faz suas necessidades como os animais, no mato, à beira de córregos e mananciais, ou em sacolas e latas que são jogadas no meio da rua. E mais ou menos 1 bilhão utiliza águas contaminadas por fezes humanas e animais para beber, cozinhar, lavar roupa e fazer a higiene pessoal.Isso faz com que pelo menos1.8 milhão de crianças morram, a cada ano, vítimas de diarréia. E que doenças infecciosas como cólera, tifo e parasitoses, causadas pelo que o relatório chama eufemisticamente de ‘falta de acesso ao saneamento’, provoquem enormes devastações na África, na Ásia e na América Latina, constituindo a segunda causa de mortalidade infantil no mundo”

Parece algo tão abstrato, não? Tão distante. Mas, em algum lugar do mundo, é bem concreto e bem real. Tão concreto e real que tem cheiro.

Uma dos elementos mais incríveis dessa situação é que, em geral, os lugares com a pior qualidade da água são também os lugares onde ela é mais cara para a população. Diz Vargas Llosa que, enquanto Salvadorenhos, jamaicanos e nicaragüenses gastam 20% da renda com água, britânicos gastam em média apenas 3%.

Não há como reproduzir todo o artigo aqui, mas é inevitável terminar com a conclusão do autor, que, para quem começou o dia com a  notícia de um menino de seis anos morrendo de uma das formas mais cruéis que se possa imaginar, é bastante custosa.

“Um dos aspectos mais sombrios da questão é que, em grande parte por causa do nojo e da repulsa que os seres humanos sentimos por tudo o que tem a ver com a merda, os governos e organismos internacionais de promoção do desenvolvimento não costumam dar a ela a devida prioridade. Geralmente a subestimam, e dedicam recursos insignificantes a projetos de saneamento. A verdade é que viver em meio à sujeira é nefasto não apenas para o corpo mas também para o espírito, para a mais elementar auto-estima, para o ânimo que permite erguer a cabeça contra o infortúnio e manter viva a esperança, motor de todo o progresso. ‘Nascemos entre fezes e urina’, escreveu Santo Agostinho’. Um calafrio deveria subir por nossas costas como uma cobra de gelo ao pensarmos que um terço de nossos contemporâneos nunca acaba de sair da imundície em que veio a este vale de lágrimas.”

Respondendo a um post em outro blog, sobre a necessidade ou não de clareza em um poema para sua abertura à interpretação, me dei conta (diariamente, na verdade) de que o tema do silêncio sempre me ronda. Então, resolvi reproduzir aqui um trecho da interpretação de Gadamer sobre um pequeno poema de Paul Celan, que inicia o seu Quem Sou Eu, Quem És Tu?

Há filósofos que se aventuram a interpretar poemas e criam uma confusão absurda em minha pobre mente, apesar do fato de suas interpretações serem uma viagem fascinante. Heidegger, com Trakl e Hölderlin, por exemplo. Na hora em que eu leio suas interpretações, elas me parecem, ao mesmo tempo, absurdas e repletas de insights. E também, isso é que é pior, com a sensação de que eu nunca chegaria nelas, justamente porque os poemas são para lá de obscuros, principalmente os de Trakl.
 

Recentemente, me meti em mais uma aventura: comecei a ler o texto de Gadamer sobre os poemas de Paul Celan. Estou no início ainda, mas o movimento se repete: poemas obscuros, interpretações originalíssimas, apesar de trazerem idéias com as quais estou familiarizada e das quais gosto muito, consciência absurda das minhas limitações, caso fosse deixada à sós com a poesia de Celan.
 

Um exemplo. Celan:

“Tu podes confiante
receber-me com neve:
sempre ao percorrer o verão
ombro a ombro com a amoreira
gritava sua mais jovem
folha.”

Gadamer:
 
“O poema é dominado por um forte contraste. A neve, que torna tudo uniforme e frio mas que igualmente acalma, não é somente recebida aqui, ela também é saudada. Pois o verão, que permanece atrás daquele que fala, pelo visto foi dificilmente suportado na profusão de sua atividade, de seu desabrochar e desdobrar-se. Certamente não se trata de um verão real, tampouco o Tu que é interpelado significa o inverno ou oferece neve real. Certamente houve um tempo de profusão, contra o qual a esterilidade do inverno atua como um alívio. (…) Além do mais, deve-se atentar para o que significa o ’sempre’. A ênfase em um caminho repetido sugere que a esperança do caminhante, daquele que continua sempre a andar, nunca é realizada. Essa esperança seria a de ser acompanhado pela amoreira da vida ainda que uma única vez, calma e silenciosamente. Porém, haverá sempre um novo rebento, exigente como o grito do recém-nascido sedento, não permitindo qualquer tranquilidade. (…) Quem poderá definir o que está em jogo entre desejo e renúncia, entre verão e inverno, vida e morte, grito e tranquilidade, palavra e silêncio? O que estes versos expressam é a disposição para aceitar esse outro, seja ele o que for. Assim, parece-me, por fim, inteiramente possível ler essa disposição diretamente como disposição para a morte, como aceitação do último e mais extremo contraste com o excesso da vida. (…) Perguntamos novamente: o que significa ‘neve’ aqui? Seria uma alusão à experiência de fazer poesia? Seria talvez a palavra do próprio poema que se enuncia à medida que, em sua discrição, garante o silêncio do inverno, oferecido como uma dádiva? Ou será que ela significa, e é, para todos nós, aquele ser silencioso depois de um excesso de palavras, que todos conhecemos e que pode aparecer para todos nós como um alívio verdadeiro? A questão não é para ser respondida. A distinção entre mim e você, entre o Eu do poeta e todos nós, a quem seu poema alcança, falha. O poema diz ao poeta, assim como a todos nós, que o silêncio é bem-vindo. (…).”

Além da abordagem de temas que me interessam, a interpretação de Gadamer me atrai justamente porque abre mais um espaço para o silêncio ao dizer que algumas  questões importantes não precisam ser respondidas, o que, por si só, já reduz a opressão da ‘normalidade’ cotidiana de palavras, frases, respostas, certezas. Aqui, um texto de Raquel Abi-Sâmara, tradutora de Celan e Gadamer